17 mitos da Indústria Musical

Vi este post AQUI, em inglês e adaptei para a realidade brasileira.

Tudo que está escrito lá eu acredito faz tempo.

Mas tem muita gente que pensa de forma diferente, de que alguma força externa vai resolver todos seus problemas, ou que 3 minutos num programa de TV vai te fazer o maior ídolo musical de todos os tempos.

Não é bem assim. E os números/realidade mostram o que acontece.

Vamos lá, 17 mitos:

01- Um contrato com uma gravadora vai te fazer um sucesso.

Nem sempre. Na verdade em 98% dos casos não. 98 de 100 artistas que assinam um contrato com uma gravadora não conseguem o retorno financeiro em vendas para pagar os custos de produção.

Ou seja, o contrato não se paga e o artista tem um futuro contrato ou continuação do primeiro cancelado. Sucesso não é só aparecer em capa de revista ou lotar estádios. Sucesso também é viver daquilo que a gente gosta. No caso, viver de música.

02-“Windowing” é efetivo.

Explicando “Windowing” – Quando o artista/gravadora espera um tempo pra colocar as músicas em serviços de streaming depois do seu lançamento. Lançou, espera vender muito, só depois coloca pra tocar em streaming.

Um monte de artista de sucesso faz isso.

Um monte de artista de sucesso não faz isso. E, atualmente, não dá pra vc colocar pra vender na iTunes Store sem colocar pra tocar na Apple Music, por exemplo. Isso non ecziste.

Experiência própria – No século passado, quando ainda se vendia vinyl, a Transamérica FM iria lançar uma coletânea pra vender pelo 1406 (quem é velho lembra desse número). O Acácio Luis Costa, um dos diretores na época, disse algo muito importante e pertinente:

-Sabe como as pessoas compram disco? Ouvindo o que tem nele. Coloca trechos das musicas nas propagandas. Se as músicas forem boas, as pessoas comprarão.

O mesmo se aplica hoje em dia. Não adianta fazer o maior hype no dia do lançamento mas as pessoas não conseguirem ouvir a música no dia seguinte.

Outra coisa. A tendência atual é de que ninguém mais vá comprar albuns.

Lide com isso. Aprenda a ganhar de outro lado.

03- Streaming é ruim para a Música

A compra de CD ou de um download é única. Faz-se uma vez e nunca mais.

Pense no streaming. É justamente o contrário. Se a música é boa ela será tocada mais vezes. Por anos. No longo prazo dá mais grana do que a venda.

Só se a música for boa, lógico.

04-Sua música tocar num programa de TV te fará famoso instantaneamente.

Legal ter sua música na TV, né? Também acho. Demais. Reconhecimento de um trabalho árduo e de qualidade. Mas vc sabe quantos programas de TV existem? Quanta gente assiste? Qual o recall de qualquer coisa que acontece num programa? E se for por apenas alguns segundos? Então.

Mas, pensando de outra forma, os comerciais ajudam a alavancar artistas. Imagine Dragons e American Authors que o digam.

Resumindo:

Tocar num programa de TV = Uma execução em horário fixo num dia na semana = Quase nada.

Tocar numa novela = Uma execução em horário fixo vários dias da semana = Pouco.

Tocar num comercial = Várias execuções por dia ao longo do dia em vários dias da semana = Bom.

Vários artistas que toquei algumas vezes no Caldeirão do Huck hoje em dia sumiram.

Também conheço/lembro de artistas que tocaram massivamente em novelas e que também ninguém lembra deles hoje.

É uma medida de sucesso? Só naquele momento.

05-Fazer shows em lugares conhecidos te abre as portas pra mais lugares conhecidos.

Em termos. Qualquer um pode pagar pra tocar em algum lugar. Os lugares conhecidos mesmo conseguem te encaixar em alguma data micada, ou de menor exposição, que não vá queimar o filme da casa se seu som for um horror.

O que acontece é você capitalizar isso e tentar fazer com que seu público se interesse pelo seu show em outros lugares. Aí, consequentemente, eles irão a lugares mais conhecidos quando as oportunidades aparecerem. Mas é mais do seu lado do que da casa saber que vc tocou em algum lugar e falar “tudo bem, só porque vc tocou lá eu te coloco aqui”.

Muito mais legal, válido e engajado se vc conseguir lotar um buraco qualquer do que tocar em lugar “famoso” pra uma platéia de cadeiras vazias…

06-Você terá uma carreira se aparecer em um concurso de cantores na TV.

Do Raul Gil ao The Voice. Isso nem sempre é verdade. Na verdade quase nunca é verdade.

Vanessa Jackson. Ganhou o Fama. Cadê? Adoro a voz dela, o som dela. Sumiu, infelizmente.

Thiaguinho. Foi do Fama, não ganhou, tá aí com tudo. Porque o Péricles do Exaltasamba é um cara de visão.

Banda Malta? Ellen Oléria? Sam Alves? Danilo Reis & Rafael?

Pensando na gringa, 14 temporadas de American Idol nos EUA. Lembre de 10 nomes de finalistas. Entre 140 finalistas (10 por temporada). Lembrou? Então.

Isso é programa de TV. Não programa de carreira. Se vc for esperto, é uma excelente plataforma de lançamento. Mesmo. Só toma cuidado com o contrato que você “ganha” do programa. Nem sempre é tão favorável ao artista. Nunca é.

07-Grandes gravadoras desenvolvem a carreira do artista.

Não. Grandes gravadoras querem artista que vende muito. Até dão um gás no começo, investem uma grana, mas se não der resultado o artista fica lá amarrado, sem investimento.

O esquema é o seguinte:

Gravadora contrata um single. E investe. Deu resultado? Faz o segundo single, mas já pensando num álbum. Deu certo? Lança o terceiro single com o álbum. Vendeu? Ótimo. Faz mais um single novo. E investe. Deu resultado? Etc, etc, etc.

Mas só se o “Deu resultado” der resultado. Senão morre no primeiro/segundo single.

08-Grandes gravadoras são as inovadoras e impulsionadoras do mercado musical atual.

Não. Grandes gravadoras, como tudo que é grande, se movem lentamente. E nem sempre na direção certa. O mercado mudou muito, as estratégias mudam a cada ano, mas as grandes ainda pensam como pensavam há 5, 10 anos atrás. E ainda pensam em processar gente nos tribunais ao invés de investir em formas diferentes de venda/negociação/uso/distribuição.

09-Se você marca um show, a galera vem.

Não. Tem que divulgar o show. Sem parar. Incessantemente. Em vários canais, pra vários públicos.

Só colocar o evento lá no Facebook não resolve em nada.

10-Vendas de álbum valem alguma coisa.

Não mais. Streaming é o que vale. Naquele esquema de longo prazo.

E fazer show, vender sua experiência.

Uma grana vinda do Patreon ou do Bandcamp também ajuda, mas o movimento ainda é incipiente no Brasil.

O mesmo com Kickstarter, Indiegogo, Kickante e afins. Tentar fazer com que um show/álbum seja bancado pela galera ainda é um sonho distante no país.

Exemplo da Patrícia Marx. 30 anos de carreira, 12 álbuns lançados. Voz linda, produção sempre esmerada.

Colocou o projeto do novo álbum no Kickante. Arrecadou 2% do que precisava.

11- Se pararmos de pagar pela música os artistas param de criar música.

Esse era o argumento na época do Napster.

Mas 15 anos depois a gente ainda tem tanta ou mais música do que naquela época.

Quer pagar 20 reais pelo ingresso do meu show mas não quer pagar 10 no meu CD? Tudo bem.

O único e grande problema aqui são os compositores. Os que não fazem show e vivem de música.

Escrevem pra um monte de gente. Mas se esse monte de gente não ganhar dinheiro de alguma forma que possa ser repassada aos compositores (direitos autorais, de execução, etc), esses não compõem mais. Ou compõem menos.

Se o ECAD funcionasse de verdade, a cada show que algum artistas fizesse um percentual do que eles arrecadam efetivamente chegaria aos compositores. Mas o ECAD só cobra a grana, a playlist do que vc tocou nunca é pedida. Então fica dificil saber quem tem que receber, né?

12-Ou você tá na batalha ou vc é um sucesso.

Música é uma das poucas carreiras onde o sucesso é definido pela fama.

Você é famoso? Você é um sucesso.

Você não é famoso? Vixe, não deu certo na vida.

Não é assim. Tem muito músico e cantor vivendo de música sem ser famoso. Cantor de jingle. Músico de estúdio. Músico acompanhante. Dono de estúdio. De escola de música. Professor de música.

Tem muita gente ganhando grana com música sem fazer sucesso para o grande público.

13- Mídias Sociais são mais importantes do que e-mail.

Esse pensamento está mudando.

Lógico que é importante estar em todas as mídias sociais diariamente. Com relevância, coisas interessantes, etc.

Mas as mídias sociais são donas delas mesmas. E você tá lá lutando pra aparecer.

Aí mudam o tal do algoritmo e todo seu trabalho vai pro ralo. Tudo aquilo que vc batalhou muda, a estratégia tem que mudar.

Já pensou nos artistas que investiram tempo no Orkut?

Investir em uma base de e-mails é muito importante. Chegar nas pessoas diretamente. Mostrar pra elas seu som, contar sobre seu show, sem elas terem que depender do algoritmo do Facebook (ou de qquer outra mídia) pra descobrirem isso.

14-Se os fãs querem comprar coisas suas, eles vão comprar.

Não. Se for produto ruim não adianta. E se for dificil de achar/comprar, menos ainda.

Ganhar dinheiro com show é um começo. Mas vender o áudio daquele show pra download é mais legal. E na hora que o show tá rolando. Avisa lá no microfone que tá a venda.

A galera vai pelo impulso. Compra pra ouvir de novo aquela música que ela cantou junto naquele momento.

E coloca alguém pra vender isso do lado do palco, entregue o áudio com qualidade. Com uma máquina de cartão.

Camiseta, adesivo, sei lá. Só tem que ser coisa legal. De tosqueira o mundo já tá cheio.

15-Só a Música é o que importa.

Sim, a música tem que ser demais.

O objetivo inicial e final. Qualidade.

Mas sem promoção e divulgação a música não chega a lugar nenhum. Imagina quanta gente lança música todos os dias…

Quanta gente quer um lugar ao Sol?

Pense numa história, crie e mostre o conteúdo ao redor da música. Mostre os porquês. Faça algo a mais para sua música ser mais interessante.

Muitas vezes a gente ouve alguma coisa e acha “legalzinho”. Mas aí a gente conta a história por trás e torna-se demais.

“Rolling in the Deep” da Adele é um caso desses. A música é legal. Mas quando vc sabe que é a história da vida dela e que o ex-namorado queria uma grana de “direitos autorais” porque aconteceu com ele, a música torna-se muito mais interessante.

16-A quantidade de equipamento usado faz a diferença.

Existe uma máxima que o Cesar Leite sempre diz:

“Shit in, shit out”.

Óbvio que não dá pra gravar música de qualidade com o microfone do celular, mas não é aquele monte de botão do estúdio que vai fazer sua idéia medíocre se tornar algo sensacional.

Qualidade de gravação é o mínimo que vc tem que ter. Num estúdio cheio de botão ou no seu home studio. Mas qualidade de conteúdo é o básico para ter algo bom pras pessoas ouvirem.

17-Você precisa de um publicista para conseguir aparecer.

Óbvio que um assessor de imprensa te ajuda a chegar em meios de comunicação onde você não tem contato, mas você também fazer esse trabalho com blogs, fan pages, etc, é mais efetivo.

Às vezes o blogueiro prefere conversar direto com o artista do que com o assessor.

Deixa o assessor cuidar da grande mídia, tentar dar o tiro dele lá. Enquanto isso faça esse trabalho de base que é extremamente importante.

Hoje em dia é tão ou mais importante aparecer naquele blog que fala especificamente do seu estilo musical do que na Revista Caras abraçado com alguém naquele monte de fotinho de famoso.

Myth-2

_________________________

Pronto.

Faltou alguma coisa? Discorda de alguma coisa?

Os comentários estão logo aqui embaixo pra gente expandir o bate-papo.

Tudo de bom,

Billy.

 

 

2 Replies to “17 mitos da Indústria Musical”

  1. Sensacional! Parabéns pelo texto e pela visão. Adimiro muito sua (sempre) sincera, clara e firme forma de pensar e externar sobre tudo na música. Cada dia mais teu fã, pode ter certeza disso!

    Abração, Maestro Billy!

    1. Gasparzinho,
      Obrigado pelo comentário aqui!
      Fico contente em saber!
      Abraços e sucesso sempre.

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