A polêmica do caso Marvin Gaye vs. Pharrell Williams & Robin Thicke.

Você que é minimamente antenado em música ouviu falar nesta semana sobre o resultado do julgamento de um processo de plágio que a familia do Marvin Gaye moveu contra o Pharrell Williams e o Robin Thicke pela música Blurred Lines, certo?

Então.

Agora entenda o que isso representa, o resultado que deu, e o que pode acontecer.

Primeiro vamos ouvir as duas músicas.

Por favor perca um tempo e ouça até o final.

A do Thicke.

E a do Gaye.

As músicas não são exatamente iguais, correto?

O clima é igual, o groove é parecido, o conceito é quase o mesmo, e aquelas garrafinhas de fundo na percussão são iguais.

Mas só.

Nem a melodia nem a letra são iguais. De forma alguma.

Então começa o problema.

Uma vez um consultor jurídico focado em direitos autorais me disse que se o autor ACHA que a música é igual, o pretenso plagiador já perdeu o processo.

Simples assim.

Então foi nisso que a familia do Gaye se baseou. Em ACHAR que a música do Thicke era igual na intenção e clima.

Algo completamente subjetivo.

Além disso a familia do Gaye, em conjunto com a editora Bridgeport, citou a música “Sexy Ways” do Funkadelic como outra plagiada pela dupla.

Ouçam Sexy Ways:

Também. Mesmo clima. Melodia e letras diferentes.

Aliás se fosse pra acusar de plágio, a música The Right Thing do Simply Red é mais plágio do que qualquer outra em cima dessa do Funkadelic.

Ouça o refrão das duas, tem o mesmo “I… oh I….”

Bom, mas o Simply Red não tá no banco dos réus.

Continuando…

Dizem por aí que “Copiar um é plágio, copiar dois vira referência”.

E eu acho que é por aí, especificamente no caso aqui é exatamente isso.

Foi uma idéia, um clima, uma vibe que virou uma música. Segundo Thicke e Pharrell, era a “invocação de uma Era”.

E que fez sucesso.

Aí a galera do Gaye achou que era igual. E processou. E no júri popular todo mundo achou que a familia do Gaye tinha razão.

Eu discordo.

Um monte de música se parece com um monte de música.

Isso não tem como resolver.

O conceito “esta música me lembra aquela outra música então vou processar” está completamente errado.

Você pode mudar a letra, o ritmo, o estilo, a pegada, a voz do cantor, os instrumentos. Em algum momento alguma música vai lembrar alguma outra.

E nem sempre isso é plágio.

E essa resolução a favor da familia do Gaye abre um precedente absurdo.

Eu fiz aqui uma música que tem dó-ré-mi-mi-mi. Só isso.

Registrei.

Alguém vem e faz uma música com dó-ré-mi-fá-mi. Pronto. É plágio da minha.

“Mas a sua música nunca tocou!”

Não importa. Eu fiz antes. E parece com a minha. Ele deve ter ouvido quando passou pela janela do meu estúdio.

Existe algo em música que é muito forte, que é o Zeitgeist. A vibe da época. O espírito do momento.

De repente tá todo mundo fazendo música com pegada anos 70 atualmente. Plágio um do outro? Não, o clima do momento é este.

Entende o problema?

O “ACHAR” que este “CLIMA” da música é plágio abre um precedente muito ruim.

Assim todas as bandas até hoje são plagiadoras.

Os Beatles plagiaram o Chuck Berry. Bandas de rock inglesas como os Beatles beberam na fonte do rock americano.

O Bruno Mars plagiou a vibe anos 70 dos Commodores. Ou do Michael Jackson. Pela pegada das produções dele.

O Eminem plagiou o Vanilla Ice. Só porque os dois são rappers brancos.

O Emicida plagiou o Jair Rodrigues. Só porque o Emicida é rapper e roubou o estilo do Jair quando “Deixa isso pra lá”.

Entende? Referência, homenagem, estilo, vibe, groove, pegada é uma coisa.

Roubo, plágio, apropriação indébita é outra.

Resultado?

7 milhões e pouco de dólares a mais na conta da familia Gaye.

Mas.

Isso foi um resultado. O Thicke e o Pharrell vão pedir revisão da sentença baseados na premissa de que o gênerio ou estilo musical não é passível de proteção de copyright. As letras e melodias sim, mas não é o caso em questão.

Acho corretíssimo! Provavelmente vão ganhar.

Alguém no mundo teve a paciencia de editar os trechos das duas músicas numa só.

Ah, e outra coisa.

O Thicke usou paletó de listras, parecido com o do Gaye. Pronto. Tá processado…

paleto

Tudo de bom,

Billy.

UPDATE01 – O Stevie Wonder se posicionou contra a decisão da Justiça. Veja o video (obrigado pelo link @_doMRG !)

Basicamente ele disse que o groove é parecido, mas o Thicke sempre disse que é fã do Gaye. E ainda deu um “toque” na familia Gaye, dizendo pra eles não “deixarem o advogado fazê-los perderem dinheiro com essas bobagens”. 

Vamos acompanhar.

UPDATE02_ A música “Uptown Funk” do Bruno Mars já não pode legalmente tocar em alguns lugares, por “disputa de direitos autorais”. Será que tá no mesmo esquema da Bluured Lines? Sim, a música ganhou mais 5 autores.

Veja e ouça a música do Ronson com o Mars

https://www.youtube.com/watch?v=evoTgvtxiuk

E ouça de onde vieram os cinco novos autores, segundo a Billboard nesta matéria aqui.

É a Gap Band e o clássico “Oops Upside Your Head

Realmente o “Oops Upside Your Head” lembra o “Up-town funk you up”.

Acredito que é uma forcação de barra da Gap Band.

Mas, vendo pelo outro lado, se o Ronson quisesse efetivamente fazer uma “homenagem” à Gap Band criando uma frase na mesma pegada de uma outra que ele gostasse, não custava nada colocar os caras como autores lá no começo.

UPDATE03_O Pharrell está sendo investigado pela “Happy” também. E pela mesma família Gaye, dizendo que é plágio da “Ain’t that Peculiar”. Vamos ouvir as duas.

e

Mais uma que não tem nada a ver a não ser a batida. E pronto.

Além disso a música não é do Marvin Gaye, ele não é o autor. Os autores são Pete Moore, William “Smokey” Robinson, Bobby Rogers e Marv Tarplin.

Ou seja, a família não pode processar por direitos autorais, porque o Gaye não é autor. É intérprete.

Perderam a mão…

Se quiser ler em inglês clique AQUI

Só de cabeça aqui, duas músicas que são na mesma pegada da do Gaye aí.

https://youtu.be/YwTUlO6UiOo

UPDATE04_ Jay Z morreu numa grana também. 50% do que ele ganhou com Versus vai para o artista Bruno Spoerri.

Disse Spoerri que se o Jay Z tivesse pedido antes, sairia mais barato.

Vamos ouvir as duas pra tirar a conclusão. A do Spoerri.

E a do Jay Z

Sem comentários né? Essa é idêntica, se não for sample.

Vamos acompanhando por aqui.

3 Replies to “A polêmica do caso Marvin Gaye vs. Pharrell Williams & Robin Thicke.”

  1. Evandro Pastor says: Responder

    Então o pessoal que ta produzindo Nu-Disco e Nu-Funk vão ter problemas…

    1. Nem fala! Bobeou todo mundo se dá mal!
      Reza a lenda que Uptown Funk tá na Justiça já…

  2. […] a linha (OK, chega de trocadilhos) entre referência e apropriação indevida, e nota-se que as coisas ficam mais subjetivas quando a cópia está mais no clima geral ou conceito e não em sequência de acordes, melodias e […]

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