O experimento de Sound Design que virou álbum

Para começar, uma citação e um quadrinho –
O medo do que outras pessoas vão pensar é a única dinâmica mais paralisante nos negócios e na vida” (Cindy Gallop)

Com esta citação da Cindy Gallop e esse quadrinho da Loryn Brantz em mente, decidi fazer um álbum.

Ouça enquanto lê –

É sempre difícil deixar nossa zona de conforto, e é ainda mais difícil deixar a zona de conforto, começar um álbum e dizer a si mesmo que o álbum está pronto.

Sempre é.

Sempre será.

Mas se você continuar a desenvolver, criar, mixar e finalizar, você nunca sai do estúdio com o bicho pronto.

Questões filosóficas à parte, eu sempre quis fazer um álbum sozinho, mas de uma maneira diferente.

Então, decidi fazer um experimento em Sound Design, que no final se transformou em um álbum.

Depois que eu me especializei em Áudio para Video Games pela Berklee College of Music e trabalho com VR / AR / 360 Vídeos e Sound Design hoje em dia, foi o caminho mais lógico a percorrer.

Você vai ouvir e pensar, “bom, essas aí são músicas, isso é música”. Sim, mas todo o processo é puro Sound Designing.

Explicando:

Sempre ando com um gravador no bolso. Se não tá comigo, app prá celular resolve também.

Então comecei a gravar todos os sons que ouço durante o dia, especialmente durante o meu trajeto de casa pro trabalho.

O som dos trens chegando na estação do metrô, das portas abrindo, do povo conversando, dos anúncios nos alto falantes das estações, etc.

Uma vez eu estava dentro do metrô de Londres e comecei a gravar todo esse processo aí.

E especificamente no trem que eu estava, os anúncios de áudio saíam de uma maneira estranha. Estavam dobrados, como se tivesse um delay na voz, mas era um erro de sincronização dos falantes.

Quando voltei pro estúdio, achei o bpm do atraso e coloquei uma batida por baixo da voz. Então, criei uma música que emula um processo de andar dentro de uma estação de metrô. Todo o barulho, música, sons aleatórios, passos, walla.

E o áudio atrasado.

Esta música levou a outra que levou a outra e assim foi.

Para todos os sons que eu capturei, me comprometi a criar uma música. E também fiz muita experimentação. Trabalhando com sons simples, como passos, tosses, pequenos sinos, até sons mais elaborados como orquestras, pianos, efeitos gerados por computador, tons de 8 bits, voz de text-to-speech, samples, loops, ruídos …

Viajei para Amsterdam, pra Lisboa, para algumas pequenas cidades da Alemanha, e agora estou morando em Berlim.

Todos esses lugares (e outros lugares do mundo) têm uma Sound Impression, uma característica peculiar em termos de ambiente e som, que capturei e criei música sobre ele.

 

O resultado está aqui.

Música, mas tudo feito com base em experimentos de Sound Design.

Ouça tudo de uma vez (o álbum é mixado de propósito, uma música é harmonicamente encadeada com a próxima), e se você está curioso sobre o processo, explico mais sobre cada música aqui embaixo.

A experiência é mais divertida se você ouvir com fones de ouvido. Existem alguns áudios binaurais e a mixagem foi intencionalmente feita para fones de ouvido, feito prá ouvir de casa pro trabalho e vice-versa, o tal do “Commute”.
Divirta-se!

Algumas infos importantes:

-O álbum foi masterizado no Suntrip Studios em São Paulo. Masterização é um dos processos mais importantes hoje em dia, é a “normalização” da qualidade sonora das músicas, o que faz você prestar atenção apenas no conceito, não em “ah, não tá com peso” ou “bom.. Acho que falta agudo aqui “.

 

-A arte da capa foi feita pelo chapa Rodrigo Zannin, Diretor de Arte que hoje mora em Singapura.

Mandei prá ele uma foto do meu fone de ouvido e ele criou todo o resto.

Todas as músicas (singles) têm uma capa diferente, com base no álbum original. E o Zannin me explicou sobre o processo criativo, em suas próprias palavras:

-A capa do álbum original usa as linhas de tram e ônibus de Heidelberg sobre a foto do fone de ouvido.

Os singles

– A arte final da Mind the Gap usa o design do metrô de Londres (obviamente).

Sound of Spheres usa as linhas do metrô de Bagdá. Bagdá é a cidade que tem uma antiga cidade circular abaixo dela.

Caipirinha utiliza o projeto do metrô São Paulo-Brasil.

Bombay Sunset usa o design de Mumbai.

Amsterdam Centraal usa obviamente o design do transporte público de Amsterdam.

Berlin usa o do U-Bahn, obviamente.

Namaste usa o design do transporte de Nova Delhi.

Love Maschine usa as linhas de Paris.

Baixa-Chiado tem exatamente o ponto de Baixa-Chiado, Lisboa.

Dark usa o design das linhas de Reykjavik. Reykjavik é a capital que recebe menos luz solar entre todas as capitais do mundo.

Psalm usa as linhas da Philadelphia, a cidade que ainda tem a casa onde John Coltrane morou.

Commute - Covers

 

E aqui estão os processos, música por música –

01 – Mind the Gap

A primeira. Você pode sentir todo o movimento dentro do London Tube. Todos os sons são mixados com a música, e a própria música tem alguns trechos que podem ser facilmente encontrados dentro de uma estação, como alguém cantando, todos os fuzzes e ruídos graves. Também as batidas foram intencionalmente feitas com distorção, para dar a sensação de que alguém está ouvindo com um alto-falante de baixa qualidade dentro do trem.

 

02 – Sound of Spheres

Eu tinha esses sons do espaço e sou fascinado pela música do Vangelis. A idéia aqui é ter verdadeiros sons graves mega sinistros junto com este sentimento de “fora do espaço”, para emular um passeio através de estrelas e planetas.

 

03 – Caipirinha

Os vocais estão disponíveis em uma loja de samples, então eu trabalhei com o conceito de beber Caipirinha. Muita Caipirinha. Começa normal, uma batida com algum solo de guitarra, fica mais lento, o cara começa a cantar, ficar bêbado, a voz distorce, a música fica mais rápida, mais distorcida e então a Bossa-Nova vira esse Deep House de novo, mas agora com Caipirinha dentro dela. Faça de conta que está mamado. E canta junto.

🙂

 

04 – Bombay Sunset

Sempre quis fazer uma música que eu pudesse tocar apenas uma nota. Esse é o caso. Só toquei a primeira nota. Todo o resto é uma sucessão de loops agrupados. A idéia aqui é mostrar um conceito que eu acredito, que todos os sons podem funcionar com todos os sons. Só precisa um ambiente amigável e um bpm fixo para todos eles se reunirem. Então eu tenho orquestras misturadas com pianos, bateria, tablas, sitars, guitarras de jazz, scratches e efeitos. Todos eles vindo de loops pré-existentes. Mais aquela nota que eu toquei no começo (e que fica na musica toda).

 

05 – Amsterdam Centraal

O ambiente é da estação central de Amsterdam. Estava lá esperando pelo meu trem e gravando. Os anúncios não são tão perceptíveis, mas as vozes das pessoas que chegam podem ser ouvidas como binaural. Além disso, a batida e a linha de baixo criaram um mix entre uma das primeiras músicas Dance de sucesso, I Feel Love (Giorgio Moroder / Donna Summer) com o ritmo de um trem.

 

06 – Berlin

Techno, óbvio. Com sons de U-Bahn. Eu sempre ouvi os anúncios do U-Bahn e pensei em criar algo com eles. Também a chegada do trem tem algumas frequências de som interessantes, que realcei com compressão e equalização dentro da canção.

 

07 – Namaste

Essa música foi feita em um dia. A música é bastante simples, mas o processamento da voz é diferente. Você não percebe quando a voz (“Namasteeeeee”) vira um instrumento de 8 bits e fica dentro da mix com distorção, processamento e looping. Aqui embaixo você pode ouvir só a voz. Que no final dá o clima todo da música.

https://soundcloud.com/billymaestro/namaste-vocal-demo/s-bEvQV

 

08-Love Maschine

Minha primeira tentativa de fazer música de uma maneira diferente, sem teclado, usando apenas o Maschine da Native Instrument (tanto o DAW quanto o equipamento). Como temos 16 botões e não notas pretas e brancas numa ordem lógica (veja a figura abaixo) você fica muito livre para ir aonde quiser, seu cérebro não tem a barreira lógica de tocar um teclado.

Levei 2 dias para mixar, mas o conceito foi muito fácil, era só feeling, nenhuma teoria visível em tudo. O Maschine fez toda a teoria para mim.

Além disso, para os vocais, pedi em um post no Facebook pras pessoas escreverem suas palavras favoritas em Inglês. Algumas deles não rolaram (tipo “Let’s have an Oswald Spider filet”), mas a maioria deles eram bacanas. Então passei em um software de text-to-speech e rendi 3 vozes sinterizadas. Durante este processo, notei que “Love” era a palavra mais usada, e todas as outras palavras podiam se relacionar com ela. Então fiz os últimos versos para terminar em “Love”, Não há loops ou samples nela.

 

09-Baixa-Chiado

Minha segunda tentativa de usar outro DAW para o projeto, agora com Ignite.
Eu gosto de sair do meu equipamento comum do dia-a-dia para criar.
Diferentes sons, diferentes métodos de mixagem, criação, reprodução, etc.
Neste caso, como eu era novo no ambiente, decidi fazer um estilo “clássico” de Lounge Music. Mas com mais batidas, como as do início dos anos 00 do selo Naked Music.
Amo esse conceito ostinato-minimalista de manter apenas uma linha de baixo e evoluir sobre ela com acordes diferentes e dissonantes. Como as canções New Order dos anos 80 (não comparando, apenas usando como referência).
O Sound Design por baixo é uma caminhada através do metrô de Lisboa. Que é muito mais tranqüilo do que os de Londres ou Berlim. A canção evolui e o trem se aproxima, quando chega na plataforma vem um solo, lembrando de pessoas entrando e saindo do trem.

A locutora diz “Próxima estação – Baixa-Chiado“.

Também há uma referência do Verão de Vivaldi durante a canção. Só prá dar um clima.

 

10-Dark

Essa música era para ser uma experiência sinestésica de um doce brasileiro. Sim, um bombom de chocolate escuro com sabor de laranja nele. Você primeiro toca a embalagem, a sensação de abrir, colocar na sua boca e sentir todos os sabores requintados nele. O solo de saxofone distorcido é o momento que você mastiga pela primeira vez. Você gosta tanto que você faz tudo de novo, agora com mais sabor em sua boca (a segunda parte da canção). Até porque você juntou 2 bombons em uma bocada só. 🙂

 

11-Psalm

Gravei alguém rezando e cantando dentro de uma igreja no sul da Alemanha. Com meu celular. Depois de limpar e tratar o audio, preservei o reverb natural das instalações, fiz algumas mudanças na melodia usando Melodyne, acrescentei alguns sons hipnóticos e repetitivos para realçar este clima etéreo, em seguida, adicionei sons comuns como piano, bateria e guitarra. A voz funciona tanto em uma única harmonia e numa harmonia mais elaborada. Está aberta para interpretação. No final, o “cantor” fecha o seu livro de oração, levanta-se da sua posição de oração e sai.

 

É o fim do álbum e do experimento.

Tudo de bom,

 

Billy

3 Comment

  1. Depois de ler as explicações, acho que a “Dark” é minha nova favorita do album! Hehehe!

  2. […] que lancei meu álbum, comecei a mandar prá todo mundo […]

    1. Né? O lance do bombom é muito divertido. Depois passo o nome do bombom prá vc provar e entender o que eu tô tocando lá.
      🙂

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