O fim do mercado musical, mais um capítulo.

E assim vamos.

Depois que essa tal de internet “pegou” no mundo todo, dia sim dia não vem um monte de reports alarmantes sobre o fim da música.

Ontem eu li um interessante que se encaixa perfeitamente no mercado brasileiro.

O fim do cargo de A&R.

Prá gente saber se vai acabar mesmo, vamos primeiro explicar quem é o A&R da gravadora.

É o cara do Artists & Repertoire, o cara que vai atrás do artista na rua, na balada, no bar, no show, para contratá-lo e assim ter um bom produto dentro da gravadora, que venderá milhões e deixará todo mundo contente.

É o famoso “descobridor de talentos”.

Um cara famoso no mundo dos A&R foi John Hammond. O cara SÓ descobriu Aretha Franklin, Billie Holiday, Count Basie, George Benson, Bob Dylan, Leonard Cohen, Bruce Springsteen e mais um monte desses caras “fracos”.

John Hammond e seus Discos de Ouro.

Mas ele é um caso à parte.

Um outro caso à parte aqui no Brasil foi o presidente da Warner, André Midani, um dos viabilizadores da Bossa-Nova em sua gravadora.

André Midani. Fui estagiário na Warner na época dele…

Outros excelentes A&Rs? Nelson Motta (Marisa Monte, por exemplo)

Nelson Motta

Pena Schmidt, o famoso @penas (Titãs, Ira!, Almir Sater, entre outros)

Pena Schmidt

E o Miranda (Raimundos, Skank, CSS, Móveis Coloniais de Acajú e outros mais)

Miranda

Bom, esse povo todo está sumindo.

Hoje em dia tudo mudou. O que a gravadora procura é exatamente algo igual ao que a outra gravadora já tem.

Exemplos ? Saiu Marisa Monte, vieram todos os clones de Marisa Monte de outras gravadoras.

Saiu Skank, vieram todas aquelas outras bandas de reggae da época.

Sertanejo Universitário ? Só de clone do Luan Santana ou do Jorge & Mateus tem pelo menos uns 4000 saindo do forno todos os dias, é só assinar um email list de uma empresa especializada nesse mercado. Recebo pelo menos 10 emails com “o futuro do Sertanejo”, “a dupla de maior sucesso na Festa do Boi Preto de Santo Antonio”, etc, etc.

Além disso, há alguns anos atrás, vieram com uma idéia genial.

Porque não usar o próprio povo para escolher o que é legal para ele, o Povo ?

Porque não colocar o consumidor no papel do A&R ? Se é ele que queremos atingir, nada melhor do que ele escolher o que quer ouvir.

E assim surgiram os programas especializados em “talentos musicais”. Ídolos é um exemplo.

É um programa legal, lúdico, que mostra o melhor e o pior, nunca o mediano.

Mas tudo bem, o que importa é a diversão e mostar lá o cara cantando bem e chorando no final quando dizem que ele é bom…

Só que a premissa é errada. Ao transformar a vida daquelas pessoas num reality show, estão tirando a qualidade musical do primeiro plano.

E, além disso, o cantar bem ou ser bonito-bem-apessoado-simpático, não é garantia de uma carreira sólida.

O grande lance que um programa como estes não percebe é a aposta no talento.

É a A&R pegar o artista e bancar o projeto, pensar com ele, ver o que o mercado tá querendo e entregar algo a mais.

Não simplesmente fazer o famoso “mais do mesmo” e entregar outro produto igual só que meio diferente.

E isso, o pensar diferente e juntar duas informações distintas para criar uma terceira mais interessante e viável, o público consumidor não consegue ver.

Sempre vemos estes realities e comentamos “Nossa, fulano canta igual ao famoso Sicrano”. É a cópia pela cópia.

Inovação ? Mandou um abraço.

E com a inovação mandando abraço, chegamos onde chegamos. As cópias das cópias das cópias estão aí tentando se firmar num mercado que não tem o menor interesse neles. Se é prá ouvir, vamos para o original.

A cópia não interessa.

Você acha que a Aretha Franklin tinha aquele estilo quando o John Hammond a contratou ? O que ele viu lá foi uma excelente cantora que precisava ser moldada.

Na época ela era uma excelente cantora de jazz-pop, mas foi a junção da excelente voz com uma adaptação de letra da música de Otis Redding e ainda o marketing da gravadora baseado no que as mulheres pediam na época que fez Aretha ser Aretha.

Respect, seu primeiro grande sucesso e seu primeiro Grammy, é um hino feminista até hoje.

Além disso tudo aí de música e gravadora, ainda tem o “descobrimento via internet“.

Muitas vezes funciona, mas muitas vezes é só uma moda passageira que não leva ninguém a lugar nenhum.

Justin Bieber deu certo (ninguém tira da minha cabeça que aqueles vídeos dele criança cantando/tocando foi mkt de gravadora), alguns muitos outros não.

Ainda mais quando o “descobrimento” e algo tosco. Tipo alguma música sacana e mal gravada que cai na boca do povo.

Agora já aprenderam, mas até um tempo atrás isso era motivo de descabelamento geral em gravadoras e programas de TV, achando que lá estava o novo Michael Jackson.

Não estava. Ainda bem!

Resumindo, o lance é o seguinte:

A&R, uma profissão nobre, indispensável na época em que as gravadoras se preocupavam mais com a música do que com o dinheiro, que infelizmente está com seus dias contados. Algumas gravadoras independentes usam e abusam do A&R, oq eu é ótimo. Keane, Coldplay, Adele e outros mais surgiram ainda desta forma.

Aqui no Brasil algumas independentes dão suas tacadas e acertam em cheio. Acho legal, até pela pluralidade que rola. Tem prá todo mundo, e tem de tudo. Coisa que já foi mais que deglutida atualmente.

Agora, será que as independentes vão mandar nesse mercado ? E que as grandes só vão lá chupinhar quando acharem que as bandas estão prontas ?

Bom, foi assim até agora, acho que não vai ser diferente daqui em diante…

Comentários ? Fiquem 100% à vontade, quanto mais gente opinando mais legal fica!

Tudo de bom,

Billy.

PS1_Já tratei meio que deste assunto, só que com uma visão de “a música vai acabar” neste post AQUI

PS2_Quer mais posts sobre Música ? AQUI, AQUI, AQUI, AQUI e AQUI tem alguns que acho que você vai gostar.

 

2 Replies to “O fim do mercado musical, mais um capítulo.”

  1. […] hoje em dia, como diria meu amigo Maestro Billy (@maestrobilly), tudo mudou. “O que a gravadora procura é exatamente algo igual ao que a […]

  2. Renato Carneiro says: Responder

    OI Maestro

    É isso aí, é triste, mas é isso aí, a música virou investimento – só investimento – não que não deva ser um negócio lucrativo, vivo de música há mais de 20 anos e tenho um monte de contas pra pagar, o dinheiro precisa rolar, mas como consequência, não como fim. Hoje em dia se um investidor tem 1 milhão, vale mais a pena montar uma dupla com cantores/artistas que nunca ou pouco ralaram em botecos, estudios, com repertório igual as q estão fazendo sucesso, gravar um disco com a mesma galera q gravou todos os outros discos q tbem estão fazendo sucesso e lançar do que investir em imóveis ou outra coisa qquer. O grande problema, q nos deixa sem argumento, é q dá certo, dá certo pro investidor, o povo compra, vai a shows e o investimento cresce. Não dá certo pra música…
    Hoje o preço do show de uma dupla bombada passa de 100, 200 mil reais fácil fácil, e porque ? Porque vai ter 30, 40 mil pagantes nos shows. Agora , com certeza essas carreiras não vão durar, justamente por não terem identidade, é só mais um, a verdade não rola, rola sucesso, mas não verdade.
    E realmente é um fenômeno mundial, li uma palestra do Robert Scovill, engenheiro de som, trabalhou um tempão como FOH mixer do Rush, Tom Petty, grava Paul McCartney ao vivo, 3 ou 4 TEC awards seguidos, um cara no topo da cadeia alimentar do áudio mundial. O approach dele foi por outro lado, falando sobre o efeito da tecnologia na música. Como ele bem observou, do lado de Sound reinforcement, de shows( o meu mundo ), a tecnologia ajudou e muito, porém do outro lado , no mundo da produção, dos estúdios, causou um efeito colateral desastroso. Hoje em dia qquer um grava, canta , toca, arranja , compõe, mixa… Isso nivela por baixo o mercado , e tira a Música do centro da questão, ele diz que tá cansado de ver artistas grandes, internacionais, irem pra estúdio, DEPOIS do disco pronto, pra ” tirar ” as músicas, como um cover deles mesmos, mudando tons, andamento, pq não conseguem fazer live o q foi gravado, é o poste mij… no cachorro, uma inversão de valores absurda. A música ficou de lado, a verdade ficou de lado.
    Mas tenho esperança – sempre – acho q o povo ( do mundo ) vai acabar enjoando, cansando de artistas vazios, músicas iguais, carreiras sem identidade…..e parando de gastar dinheiro nisso. tomara… tomara mesmo
    Abratz

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