O fim da Música como a conhecemos…

Tentarei aqui juntar duas coisas que estão acontecendo que podem acarretar algo muito sério…

Vamos ver se consigo.

Primeiro cenário – 

Todo final-de-semana venho para Itatiba, onde temos uma casa de campo.

E aqui, além do iPod, ouvimos bastante rádio. E especificamente uma rádio sertaneja. Não me pergunte o porquê, mas ouvimos a tal da Laser FM de Campinas.

Vinhetas toscas (inclusive algumas que acho que fui eu quem fiz lá nos idos do antigamente), locutores divertidos (naquele sentido de “divertido” que a gente gosta), propagandas intermináveis de Gingko Biloba, de emagrecedor natural, etc, etc.

E, principalmente, muita música sertaneja.

Ouvindo 1/2 hora seguida, ouvimos na grande maioria das vezes, regravações de sucessos antigos do corolário sertanejo. Todo mundo tá regravando todo mundo. E se vc pensa que é regravação de música dos anos 60, 70, engana-se redondamente… tem gente regravando música de 5 anos atrás…

E também regravando música de outros estilos para o esquema sertanejo. Dupla que regrava Ana Carolina, outra dupla que regrava banda de pagode, uma terceira dupla que regrava A MESMA música da Ana Carolina, e assim por diante. Em meia hora nada de novo é tocado na tal rádio.

Lógico, na visão das bandas e da rádio, é muito mais palatável ouvir algo que vc já conhece do que ouvir algo novo.

Muitas vezes nós aqui em casa ouvimos músicas regravadas e nossa filha mais velha diz:

-Nossa ! Como vocês conhecem esta música ?

Ela não sabe que é uma regravação. Que ouvíamos esta mesma música na nossa adolescência…

Uma técnica muito usada quando jingles e spots eram aprovados ouvindo-se uma fita K7, era colocar o mesmo spot duas vezes seguidas, um logo após do outro. O cliente, óbvio, sempre escolhia a “versão 2”. O cara já tinha ouvido “o novo”. Seu cérebro e seu ouvido estavam preparados para ouvir a mesma coisa e entender melhor. Então a versão 2 imperava.

Jogue a primeira fita K7 quem nunca fez isso na vida (quem trabalha no meio).

Onde chegaremos assim ? Provavelmente, daqui uns 10 anos, não teremos mais música nem prá regravar, já que todo mundo atualmente já tá regravando tudo. Não teremos reciclagem, não teremos música nova, nem prá regravar..

Triste cenário.

Deu prá entender ? No ciclo de regravações acabaremos por não ter mais nada prá regravar, já que não se cria música nova atualmente. É tudo regravação.

Segundo cenário – 

A idiotice da retirada de tudo que é música com direitos fonomecânicos dos vídeos do YouTube.

Prá quem ainda não sabe, e em linhas gerais, todo vídeo do YouTube que tenha qualquer música que tenha direitos fonomecânicos de terceiros que não os criadores e postadores dos vídeos, terá esta música retirada. O vídeo fica mudo.

Não importa se tá de fundo prá uma locução, não importa se vc gravou uma balada e o som tava rolando lá (onde já pagaram direitos fonomecanicos), não importa. O som some.

Lógico que não é de um dia pro outro que todos os vídeos ficarão mudos, mas aos poucos isso tá acontecendo.

A @baunilha reclamou no Podbility dessa semana sobre isso. No more Rick Roll.

O Rick Astley, que voltou do limbo com o Rick Roll, continuaria no limbo se essa ação do YouTube tivesse acontecido a uns 2 anos atrás…

Ninguém poderia tocar a música do cara, nem que fosse de brincadeira…

Evolution of Dance ? Esquece. Um bando de gente dançando ao som do nada.

Aquele povo da cadeia dançando Thriller ? Um bando de bobo com a mãozinha levantada passeando de um lado prá outro. Sem música.

Num outro cenário piorado, daqui a pouco as pessoas não conhecerão mais músicas antigas. Sejam elas mega-conhecidas atualmente, sejam elas aqueles One-hit wonders.

Imagine só você ouvir hoje uma música no rádio (porque na internet tá cada vez mais complicado, devido justamente aos tais direitos fonomecânicos). Você ouve e percebe que tem um trecho completamente sampleado de uma música do Supertramp (como tinha a uns 2 anos atrás um rap usando “Breakfast in America”).

Aí vc diz:

-Nossa, é sampler do Supertramp ! Bacana (mais ou menos), pelo menos ninguém usou nada deles até hoje!

Aí seu amigo retruca:

-Super-quem ? Nunca ouvi falar.

Aí vem vc:

-Putz, Supertramp! Vamos procurar no YouTube (ou em qualquer outro lugar).

Cadê a música ???

Pronto. Perdemos uma referência.

Mais ou menos, foi como fez o partido Nacional-Socialista da Alemanha fez com livros em 1933.

Tacou fogo, prá ninguém lembrar o que estava escrito…

E prás pessoas lerem só o que o Partido queria.

Um tal de Adolf que inventou esta estupidez… conhecem ?

Ou seja, o que tá acontecendo agora é um dos maiores retrocessos e emburrecimentos que o mercado musical pode fazer.

Junte isso (imagino que o YouTube seja apenas o primeiro) com as regravações, e daqui a pouco ninguém mais lembra de nenhuma música com mais de 10 anos.

O que as gravadoras ainda não perceberam é que nessa briga eles já saíram perdendo. Seja pelas pessoas não lembrarem mais de músicas antigas e consequentemente as consumirem, seja pela postura idiota adotada desde o primeiro dia em que um arquivo MP3 foi disponibilizado para baixar.

Eles podiam muito bem entrar junto na jogada e tentar ainda levar algum. Mas agora ficou meio tarde.

E ficam por aí flanando e adotando posturas no mínimo desagradáveis, numa tentativa de ainda manter um modelo de negócios que funcionava na época do Gutemberg, quando ele inventou a prensa e consequentemente a copiagem “industrial”.

Bom, daqui 10 anos a gente vê ou ouve (se ainda deixarem a gente ouvir alguma coisa, ou se ainda a gente conseguir ouvir alguma coisa com uma qualidade minimamente audível e interessante) o que acontecerá.

Tudo de bom,

Billy.

PS_ Acredito ainda que ouvir música antiga é extremamente importante para nossa formação, não só musical, mas também educacional ou mesmo de caráter. Onde estarão as músicas antigas, onde estarão as referências ?

Nas rádios FM ? Não, elas só tocam o que é/foi sucesso.

Nos discos ? Quem guarda disco em casa além de mim e do Gunther ?

Nos CDs ? Aqueles pedacinhos de plástico com metal que servia prá gente levar a música da loja prá casa ?

Nos iPods ? Mas de onde estas músicas surgirão no seu iPod ? E se você não sincronizar e seu computador der pau ?

Na TV ? Não, né ?

Na internet ? Do jeito que a coisa vai, também não…

Aí a gente volta prás lojas. Mas CD a R$ 36 ou até R$ 42 (coletânea do Red Hot Chili Peppers ou do Tim Maia, vc escolhe) ninguém vai comprar (como já não compra).

Em loja online ? Pode ser uma alternativa, mas onde está a discoteca destes sites ? Qual a referencia ? Eles não vão priorizar os sucessos ? Vão gastar uns 400 reais prá armazenar uma música que 1 pessoa só compre ? Negativo.

Aproveito então prá mandar um “tchau” prá todo mundo. Desde o Village People até o Louis Armstrong, passando por toda e qualquer banda/artista que fez sucesso, seja este com uma música só ou com discos e mais discos. Nunca mais os ouviremos. Foi bom enquanto durou.

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